segunda-feira, 1 de junho de 2009

A senhora arquejava, trôpega, pela subida. Até o próximo cruzamento ainda iam uns dez minutos de caminhada íngreme. Os olhos estavam vazios, espessos.
Caminhava, sendo balançada por uma multidão de dúvidas, dançando e fazendo gatimonhas sob seus pés.
O suor colava o lenço à cabeleira grisalha, que mudava de tom à medida que as brechas entre as casas permitiam um ponto de fuga para o sol alaranjado. Até ele parecia satisfeito, funcionário, batendo seu cartão de ponto depois de um dia banal de trabalho.
Ao se aproximar, percebi que falava sozinha, com fúria, tentando repelir alguma coisa que amarrava seus movimentos. Penteado e satisfeito comigo mesmo, todo engomadinho como um bom filho da puta, vi ela me perceber. O foco voltou aos seus olhos meio segundo antes de seus gritos.

"NÃO ME OLHA! NÃO DIZ NADA QUE PEGARAM MEU MENINO E AGORA EU JÁ ESTOU MORTA! NÃO ADIANTA FALAR COM MORTA!
"

E a legião de demônios que a consumia voltou a fazê-la dançar, correndo pelos morros, amaldiçoando fantasmas que só pra ela estavam visíveis.
Louca de pensar, aquela senhora me pareceu ser outra. Me pareceu ser qualquer um de nós. Loucos todos, em penitência infernal po
r permitirmos que peguem os meninos, que podem ter se tornado homens e estuprado meninas, caçado pessoas, trabalhado nos correios. Homens que, por definição, morrem. Mas aquela senhora ignorava esta premissa deveras acadêmica e fria. E andava, morta, títere movendo-se apenas pelas cordas invisíveis de um destino inexorável e imprevisível.

Se eu fosse o louco na rua, se a minha cabeça começasse a girar diferente, andava pelado por entre as gentes, vendo moinhos de vento moendo carne por preços de açougue, derretendo esperanças como se fossem pequena pastas ao nosso redor. Como se fossem apenas gordura.

Ela não se virou, a morta. caminhava rumo ao túmulo cada vez mais inadequado áquela tarde que alaranjava. Em sua marcha, me fez perceber outra verdade que motivou a escrita deste texto: Quem já morreu não pode ser novamente morto. E é por isso que ela fica aqui, onde posso lhe oferecer uma modesta cota de imortalidade. De além.
Loucos somos todos, que nos penteamos para irmos à rua, implorando por migalhas arremessadas por pessoas sempre piores que nós. Loucos somos nós que não deixamos o diferente atravessar o trilho diário de rotinas e segurança. Loucos somos nós, minha selvagem senhora morta, que tem, à sua disposição, toda a minha solidariedade. Mesmo que eu tenha fugido de você quando podia oferecê-la pessoalmente.
É a coisa boa da noite. Todo mundo está dormindo.

E assim, com as expressões desfeitas se misturando aos travesseiros, parece que ainda querem algo mais do que polir os próprios umbigos.

A sombra que É a noite anula a hipocrisia que a luz exige.

Sozinho, no escuro, mente noturna entoa o mantra que me força a levantar: ainda dá pra acreditar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

como o diabo gosta (belquiô)

Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá,
Já tenho este peso, que me fere as costas,
e não vou, eu mesmo, atar minha mão.

O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma
é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

enquanto eu espero, na estação, por um trem que não seja de partida...

livrai-nos do mal, amém. (julia pessoa)

perdão pelas poucas palavras.
por pecar propositalmente.
pela porca poesia.
perdão peço, prudente.

pelos peitos partidos.
pela putidão passiva.
pelos pêlos perdidos.
pelo pleito- pocilga.

pelos parcos pensamentos.
pela pífia paciência.
pela puta preguiça.
por pedir proficiência.

pelo pobre português.
pelos porras profreridos.
por peversões premeditadas.
pelo perene perdão pedido.

tem mais aqui: Dá o lead, porra!