sábado, 5 de março de 2005

A janela fechada deveria trazer um pouco de calor para a sala, mas eu posso sentir um vento frio furar minha espinha enquanto passa. É o cartão de visitas da noite, me avisando pra não sentar aqui. Deus não gosta de crianças mimadas, castiga os maus e mandou o filho dele se foder por nós. Aos 12 nós aprendemos a esperar seu sangue derreter seu corpo em nossas bocas, e sem mastigar, que é falta de respeito. O Lolo virou milkybar e continua parecendo cocô pasteurizado. Os cus não mudaram em nada e os bidês sumiram. Os ratos comem qualquer coisa, menos sucrilhos. Eu devia ter ido dormir.

Não há ninguém acordado num raio de uns 300 metros da minha casa. Não preciso olhar pela minha janela para saber. São famílias. Poucos jovens que, se estão acordados, estão longe daqui. Se eu resolvesse andar nu pelo quarteirão, ninguém me veria (o que pode significar a sorte de muitos deles). Talvez isso devesse me causar uma sensação de liberdade, ou de solidão. E eu sempre preferi as letras b.

Quando a gente quer ficar sozinho, qualquer barulho na porta é uma esperança.

Mas aqui até o vento foi embora, e a minha coluna pode sustentar o peso do mundo (75 kg) sem se preocupar com arrepios.

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