Eu daria tudo pra não ver você calada...
Um exorcista e uma pastilha valda, por favor.
domingo, 13 de março de 2005
sábado, 5 de março de 2005
A janela fechada deveria trazer um pouco de calor para a sala, mas eu posso sentir um vento frio furar minha espinha enquanto passa. É o cartão de visitas da noite, me avisando pra não sentar aqui. Deus não gosta de crianças mimadas, castiga os maus e mandou o filho dele se foder por nós. Aos 12 nós aprendemos a esperar seu sangue derreter seu corpo em nossas bocas, e sem mastigar, que é falta de respeito. O Lolo virou milkybar e continua parecendo cocô pasteurizado. Os cus não mudaram em nada e os bidês sumiram. Os ratos comem qualquer coisa, menos sucrilhos. Eu devia ter ido dormir.
Não há ninguém acordado num raio de uns 300 metros da minha casa. Não preciso olhar pela minha janela para saber. São famílias. Poucos jovens que, se estão acordados, estão longe daqui. Se eu resolvesse andar nu pelo quarteirão, ninguém me veria (o que pode significar a sorte de muitos deles). Talvez isso devesse me causar uma sensação de liberdade, ou de solidão. E eu sempre preferi as letras b.
Quando a gente quer ficar sozinho, qualquer barulho na porta é uma esperança.
Mas aqui até o vento foi embora, e a minha coluna pode sustentar o peso do mundo (75 kg) sem se preocupar com arrepios.
Não há ninguém acordado num raio de uns 300 metros da minha casa. Não preciso olhar pela minha janela para saber. São famílias. Poucos jovens que, se estão acordados, estão longe daqui. Se eu resolvesse andar nu pelo quarteirão, ninguém me veria (o que pode significar a sorte de muitos deles). Talvez isso devesse me causar uma sensação de liberdade, ou de solidão. E eu sempre preferi as letras b.
Quando a gente quer ficar sozinho, qualquer barulho na porta é uma esperança.
Mas aqui até o vento foi embora, e a minha coluna pode sustentar o peso do mundo (75 kg) sem se preocupar com arrepios.
quinta-feira, 3 de março de 2005
Dez minutos de vida
(Fernando Sabino)
A enfermeira surgida de uma porta me impôs silêncio com o dedo junto aos lábios e mandou-me entrar. Estava nascendo! Era um menino.
Nem bonito nem feio; tem boca, orelhas, sexo e nariz no devido lugar, cinco dedos em cada mão e em cada pé. Realizou a grande temeridade de nascer, e saiu-se bem da empreitada. Já enfrentou dez minutos de vida. Ainda traz consigo, nos olhinhos esgazeados, um resto de eternidade.
Portanto, alegremo-nos. A vida também não é bonita nem feia. Tem bocas que murmuram preces, orelhas sábias no escutar, sexos que se contentam, perfumes vários para o nariz, mãos que se apertam, dedos que acariciam, múltiplos caminhos para os pés. Ë verdade que algumas palavras, melhor fora nunca dizê-las, outras nunca escutá-las. Olhos há que procuram ver o que não podem, alguns narizes se metem onde não devem. Há muito prazer insatisfeito, muito desejo vão. Mãos que se fecham. Pés que se atropelam. Mas o simples ato de nascer já pressupõe tudo isso, o primeiro ar que se respira já contém as impurezas do mundo. O primeiro vagido é um desafio. A vida aceitou o novo corpo, e o batismo vai traçar-lhe um destino. A luta se inicia: mais um que será salvo. Portanto, alegremo-nos.
Menino sem nome ainda, não te prometo nada. Não sei se terás infância: brinquedos, quintal, monte de areia, fruta verde, casca de árvore, passarinho, porão de fantasmas, formigas em fila, pão com manteiga, beira de rio, galinha no choco, caco de vidro, pé machucado. O mundo de hoje, tal como o estou vendo da janela de meu apartamento, desconfio que lhe reserva para a infância um miraculoso aparelho eletrocosmogônico de brincar. Ou apenas uma eterna garrafa de coca-cola e um delicioso chica-bom.
Aceita, menino, esses inofensivos divertimentos. Leva-os a sério, com toda aquela seriedade grave da infância, chupa o chica-bom, bebe a coca-cola, desmonta e torna a montar a miraculosa máquina de brincar de nosso século que a imaginação de teu pai jamais poderia sequer conceber. Impõe a essas coisas e a essa vida que lhe oferecerão como infância a sofreguidão de tua boca, a ousadia de teus olhos e a força de tuas mãos. Imprime a tudo que tocares a alegria que me deste por nasceres. Qualquer que seja tua infância, conquista-a, que te abençôo. Dela te nascerá uma convicção. Conquista-a também e vai viver em meu nome.
Nada te posso dar. No teu primeiro instante de vida a minha estrela não se apagou. Partiu-se em duas, e lá no alto uma delas te espera, será tua. Nada te posso dar senão um nome e esta estrela. Se acreditares em estrela, vai buscá-la.
bonzim, né?
(Fernando Sabino)
A enfermeira surgida de uma porta me impôs silêncio com o dedo junto aos lábios e mandou-me entrar. Estava nascendo! Era um menino.
Nem bonito nem feio; tem boca, orelhas, sexo e nariz no devido lugar, cinco dedos em cada mão e em cada pé. Realizou a grande temeridade de nascer, e saiu-se bem da empreitada. Já enfrentou dez minutos de vida. Ainda traz consigo, nos olhinhos esgazeados, um resto de eternidade.
Portanto, alegremo-nos. A vida também não é bonita nem feia. Tem bocas que murmuram preces, orelhas sábias no escutar, sexos que se contentam, perfumes vários para o nariz, mãos que se apertam, dedos que acariciam, múltiplos caminhos para os pés. Ë verdade que algumas palavras, melhor fora nunca dizê-las, outras nunca escutá-las. Olhos há que procuram ver o que não podem, alguns narizes se metem onde não devem. Há muito prazer insatisfeito, muito desejo vão. Mãos que se fecham. Pés que se atropelam. Mas o simples ato de nascer já pressupõe tudo isso, o primeiro ar que se respira já contém as impurezas do mundo. O primeiro vagido é um desafio. A vida aceitou o novo corpo, e o batismo vai traçar-lhe um destino. A luta se inicia: mais um que será salvo. Portanto, alegremo-nos.
Menino sem nome ainda, não te prometo nada. Não sei se terás infância: brinquedos, quintal, monte de areia, fruta verde, casca de árvore, passarinho, porão de fantasmas, formigas em fila, pão com manteiga, beira de rio, galinha no choco, caco de vidro, pé machucado. O mundo de hoje, tal como o estou vendo da janela de meu apartamento, desconfio que lhe reserva para a infância um miraculoso aparelho eletrocosmogônico de brincar. Ou apenas uma eterna garrafa de coca-cola e um delicioso chica-bom.
Aceita, menino, esses inofensivos divertimentos. Leva-os a sério, com toda aquela seriedade grave da infância, chupa o chica-bom, bebe a coca-cola, desmonta e torna a montar a miraculosa máquina de brincar de nosso século que a imaginação de teu pai jamais poderia sequer conceber. Impõe a essas coisas e a essa vida que lhe oferecerão como infância a sofreguidão de tua boca, a ousadia de teus olhos e a força de tuas mãos. Imprime a tudo que tocares a alegria que me deste por nasceres. Qualquer que seja tua infância, conquista-a, que te abençôo. Dela te nascerá uma convicção. Conquista-a também e vai viver em meu nome.
Nada te posso dar. No teu primeiro instante de vida a minha estrela não se apagou. Partiu-se em duas, e lá no alto uma delas te espera, será tua. Nada te posso dar senão um nome e esta estrela. Se acreditares em estrela, vai buscá-la.
bonzim, né?
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