E, atrás dela, andando pelas ruas, vão seus sonhos. Alguns mancam, mas continuam, lamentando os que ficaram pra trás. Os mais queridos, ela carrega nas costas, pra que não se cansem. Vai também a lembrança de sua mãe, que morreu digna. Triste, mas digna, com orgulho de ter suportado viver até a morte. Seu pai, nunca conhecido, vaga na figura de uma sombra. A menina sempre torce que esteja olhando por ela. Vão os amores, que arrastaram alguns dos sonhos e ideais, esses papiros empoeirados altamente inflamáveis.
Ao seu lado, vai o exército de resoluções, soldados esqueléticos que acreditam num oásis atrás das próximas dunas. Infelizmente, esse oásis nunca chega, mas a nação de resoluções continua a se alistar, a produzir mais bebês, desperdiçando sua fé em algo que jamais vão tocar. Elas são a escolta para o confronto que ainda está para chegar: só se ouve o barulho dos tambores qe toma o lugar da terra prometida, atrás daquela colina. O asfalto guia o encontro, torna-o inevitável. Lá, atrás daquele monte está o mundo real, onde as sensações não são figuras de linguagem, o choro é sal e água, sem personificação. É lá que estão os atiradores especializados em matar os sonhos. E ela não pára de marchar.
terça-feira, 16 de novembro de 2004
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