terça-feira, 12 de outubro de 2004

"Aqui jaz, Fernando Sabino
Nasceu homem, morreu menino"


Quando eu era garoto, não conhecia a morte. Não haviam animais de estimação para lamentar, meu amigo imaginário foi mandado embora por mim. Não havia ninguém pra ser o canal entre mim e a dona da foice. Eu trazia a inocência quase santa de só sofrer por mulheres.
Mas aí o mundo ruiu, com o Senna, meus avós, e tantos outros que foram pra bem mais longe que barbacena. Eles deixavam um vazio que as lágrimas não conseguiam preencher. Acho que a saudade é um lenço furado...

Mas, no dia 11 de outubro de 1996, veio a pancada, morria o Renato russo, veado com um dom de tocar (até aqui, o sonho de todo veado) o coração das pessoas (agora só os cardiologistas veados sabem do que estou falando). Ele me dizia o que eram aquelas pontadas dentro do peito, que não sabia de onde vinham. Ele me disse pra amar as pessoas, e agora não diz mais nada. Acho que a morte é tampão de ouvido...

E, oito anos depois, enquanto eu esquecia as promessas que tinha feito, me dão a notícia: morreu o fernando sabino... morreu o homem que libertava seus loucos interiores para tentar ser feliz. Morreu o homem que sorria da infância sempre atrevida, morreu o retrato mineiro da vida.
É um dia muito triste, porque morreu o viramundo, morreu a calma pra dizer, morreu a coragem diante do dia imundo...

Morreu o caipira que falava por todo brasileiro, morreu a simplicidade de se mostrar por inteiro.
Caiu um pedaço do Homero, que estava em construção, e ficou sem engenheiro, mestre de obras, peão.

E a dona morte vai me matando aos pouquinhos, levando minha alma em pedacinhos...
E assim meus bolsos vão sendo preenchidos, com lenços furados e tampões de ouvido.
Se morre um coração nobre, nascem 35 falsos sabidos... espero não ter que enterrar nenhum dos verdadeiros amigos.
Guardem então, meu ensinamento... alma muito leve é levada pelo vento
Então saibam, viver a vida é um risco, não sei se salto ou me cubro.
Não conheço ainda a cara da morte, mas quero ser pêgo em outubro...

(que esses dois me esperem na porta do céu, pra gente botar o papo em dia)

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