A poeira girava em torno de nós, celebrando o encontro. A raiva transbordava do olhar de ambos, e eu já nem sei qual de nós começou a rosnar. Mas o pêlos eriçados não eram ódio. Era algo mais frio, como adaga cortando carne morta. Éramos inimigos mas nos respeitávamos. O meu medo não me dominava porque sabia que o dele não o dominaria.
Ele deu o primeiro passo, dando movimento à raiva, à selvageria. Eu era só instintos. A corrida ateou fogo nos meus nervos. Não sabia se ia vence rou perder, mas não tinha importância. Eu só queria terminar aquilo tudo dando tudo de mim. Os olhos à minha frente eram o espelho dessa vontade. Nos encontramos, afoitos demais para encaixar os primeiros golpes. Os músculos explodiam, berravam, no esforço para dar-nos vantagem. O silêncio teve medo e não ficou entre nós.
...
Meu único golpe não-planejado o atingiu. Peguei seu corpo, numa das transições da luta e o arremessei sem ver aonde ia cair. Sua coluna atingiu a quina de um pequeno muro, dando fim à sua glória. Ele havia perdido, e a dor só não era maior porque meus urros de triunfo distraíam sua atenção. Me aproximei. Seus olhos refletiam, agora, um pouco de medo. Mas o que mais chamava a atenção era que ele me olhava agradecido. A honra não diminuía sua dor, mas ajudava-o a lidar com ela. Éramos animais em luta. Um tinha que perder. Ainda faltava alguma coisa.
Estiquei seu focinho, antes de torcê-lo, cumprindo meu dever. Antes do movimento, ele lambeu minha mão. Eu chorava copiosamente.
terça-feira, 21 de setembro de 2004
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