quinta-feira, 15 de julho de 2004

Eu, Tarzan?

Eu era Tarzan, você era Jane, e pronto. Nào precisávamos saber ou8 dizer mais nada. sabíamos quem éramos e o que éramos, para sempre. Eu, homem macaco, você minha fêmea. Eu, Rei da Jângal, você e os negros, meus adoradores. Eu caçar e matar bicho, você cozinha bicho. E a nossa água era límpida e o nosso ar era puro e à noite nos amávamos. E as estrelas eram fixas no céu, pois assim seria para sempre.
Aí vieram o outros, com aquelas histórias.
Eles eram brancos, e em vez de me adorarem, como você e os negros, me explicaram. Eu era um lorde inglês! e você não tinha saído de um casulo para me servir como eu sempre pensara, era a filha d eum missionário que s eperdera na floresta e me encontrara por acaso. Que história era aquela? Eu não era mais só Tarzan, você não era mais só Jane. De repente, tínhamos sobrenomes, tínhamos parentes, tínhamos biografias. Os brancos nos infectaram com as nossas histórias. Os brancos conspurcaram nossa clareira com o passado. Pois ter uma história para trás significava ter uma história pela frente, significava ter um fim, significava velhice e morte. Pela primeira vez, à noite, você disse "Hoje não, meu bem", e eu disse "Que história é essa?". Foram as nossas primeiras palavras civilizadas. E de repente até as estrelas estavam em movimento no céu, nascendo e morrendo diante de nossos olhos atônitos. Até as estrelas tinham história!
Depois veio o problema com os negros. Não adiantou eu dizer que nada mudara, que se não me deviam obediência por eu ser rei da Jângal, deviam por eu ser um lorde inglês. Me vaiaram. Me chamarm de símbolo da mentalidade colonial, e ainda fizeram pouco da minha tanga. a Cheeta, cuja lealdade eterna se baseava na presunção de que éramos meio parentes, também me repeliu. Se eu era inglês, era um intruso - e que história era aquela de caçar e matar bichos sem qualquer consideração ecológica, como se a Jângal fosse o meu reino, só porque eu era branco? e Jane não me ajudava na minha crise de identidade:
- Eu, quem?
- e eu sei?
E chegamos a isto, Jane, ou como qur que você se chame agora. Eu uma entidade ontológica em trânsito, um ser perplexo de tanga a caminho do fim de todas as histórias, procurando um sentido nas estrelas e só vendo o silêncio piscando, você fazendo administração de empresas em algum lugar, insistindo para eu ter e-mail para, pelo menos, mantermos contato. E a água não é mais limpa, e o ar não é mais puro, e ando sentindo umas pontadas aqui do lado.

Esse texto genial está no livro "O melhor das Comédias da Vida Privada", de Luís Fernando Veríssimo. E meu, agora, porque eu ganhei um de presente.

Um abraço do embusteiro, a fonte do engano e do sofrimento p/ os deuses, o chefe dos lobos, um espírito malicioso e inquieto. (Isso é o que todos somos, apesar de nos acharmos bons sujeitos)

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