segunda-feira, 17 de maio de 2004

To blow the blues

E a segunda-feira vem se aproximando com a sutileza de um trem desgovernado. Você a vê ao longe e já sente suas pernas tremerem, uma saudade da cama, um urubu pousando no ombro. Acordar, ralar, andar, olhar pros mendigos e ouvir uma canção durante o almoço. Fingir que aprendeu. Dormir. Acordar, ralar... e o trem já parece ter atropelado tudo, passado em cima de você na terça-feira, te quebrado, te partido... Uma composição com aquele batuque ritmado vindo dos trilhos, perto dos ouvidos, o vento roçandono seu corpo caído, vendo aquele infinito aço só se afastar de seus olhos quando o sol mergulha no espaço entre os vagões. O batuque mecânico entorpecendo a cabeça, fechando a porta do exterior, te deixando sozinho num quarto escuro.
A dor no corpo já é só uma impressão distante, e a mente trabalhando, afundando no escuro da gruta, de onde vem esses grunhidos estranhos. Quarta-feira, esses sons já familiares tomam forma, num tom vermelho como o fundo de um trem, correndo na sua direção, os braços puxando o cabelo para a escuridão, um uivo azul trincando a vista do buraco negro e a consciência ficando acesa o tempo todo, dor, dor, tristeza, solidão desgovernada como uma segunda-feira quente. Soprar um blues, empurrar a tristeza mais pra frente, adiar o encontro. É preciso uma salvação. Uma tábua de salvação, com um tapa ouvidos para interromper o zumbido que as pessoas ao meu redor produzem. É uma frase atropelando a outra, fazendo de tudo um só fôlego, uma nota dissonante que ecoa sem parar, sem sentido, sem sentindo, sementindo. Quarta-feira.
Quinta, sexta, domingo, a morte tem um calendário vermelho, as alucinações são uma janela pra não olhar pros vazamentos, e o importante é manter a calma, ser honesto, buscar a felicidade com uma fêmea que trepe duas vezes por semana, e empurrar o blues. Sempre soprar o blues. Não sentir, não peitar, chorar não adianta, anda. Sopra uma canção azul que erice os pêlos da nuca de quem ouvir, exorcizar o peito, soprar o blues. Sem compasso de trem, sem dureza do aço, sem a volatilidade das horas, sem a matéria das mãos. Aprender. Soprar o blues, soprar a poeira, soprar a nuca. Soprar o tempo pra longe do olho, olhar o espaço sem remorso, sentir o sereno. Blues, blues, melodia triste pra atirar no monstro que te atormenta. É você quem deve dormir. Blues. Tranquilizar, ser, um dia, quem sabe, encarar. Blues no fundo. Segunda-feira Blues.

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