"Peço licença pra cantar, porque não gostaria de incomodá-los. Posso?"
Era assim que devia fazer o Seu Antônio.
Andando pelas ruas de Juiz de Fora, vc encontra alguns personagens que, por suas particularidades, todos conhecem. A Maria, berradora do calçadão (embora eu nunca tenha visto), ou a mulher que pede um real, senão, metade, e metade, e metade. Não tem? Então morre! Re! Vou chamar a puliça! Sá! E tem o seu Antônio, aquele velhinho que canta no calçadão, seu chapéu de cangaceiro e a voz arranhada pelo uso.
Segundo o pessoal da auto-escola, "aqueles doidos de tampar pedra". E os fdp contam suas histórias sobre a Maria ter escolhido um deles pra encarnar, ou sobre o velhinho que canta no calçadão: o que eles não sabem que tem um nome. Todos eles são doidos, que fazem parte da cidade doida em que a gente vive. Já são instituições, com suas manias loucas e insistência em existir. Eu saio da aula puto, não sei direito porque, e continuo bufando quando passo pelo velhinho, com a sua sanfona, berrando à noite. Uma vontade enorme de fazer uma reverência pra ele, dar um abraço nele, cantar com ele. Ele me vê, e eu aceno com a cabeça, discreto como sempre, e ele canta mais uma pra mim, depois do tinindo que eu recebo como resposta.
Fica em paz, Seu Antônio, João, José, Getúlio. Eu não tenho certeza do seu nome, mas sei que vc é mais que uma história, é mais que uma instituição.
Vc é meu irmão, como todos esses, e por isso eu sinto tanta vergonha e raiva. Eu odeio essa distância que todo mundo impõe, tendo pena demais de si mesmo pra olhar pro lado e ver que tem mais gente, querendo atenção. Eu não sou médico, eu sou homem. Eu sou um filho, me ensina a ver bem o mundo, em vez de brigar. Eu sou mãe, quero falar com meu filho, mas não sei o que dizer. Eu sou o canto no calçadão, tatuando outro tempo no ar de agora, eu sou a alegria de não dever a ninguém, já que não tenho mais nada. Desculpa se incomodo, não era minha intenção.
O
PROFETA Gentileza chamava-se José Datrino, nascido em 11 de abril de 1917, natural de Cafelândia, interior de São Paulo. Ele era mais um doido de matar com pedra, que ficava conversando com todo mundo, pregando nas barcas em Niterói. Falava de amor, de alegria, de gentileza. "Gentileza gera gentileza" era seu lema. Com a idade, cansou de andar, resolveu pintar os sentimentos bons nos pilares do viaduto do caju: Virou parte da cidade, que todos conheciam, tocava de vez em quando o coração de alguém, e fazia seu caminho pelo mundo. Na humildade, sem medo de perder, sem medo de ensinar. Morreu em 1996, e seus escritos foram apagados do viaduto. Sua tábua de ensinamentos já se perdeu, ms ele ganhou pelo menos uma canção.